É enervante ver a forma como o povo português está a ser levado como uma manada de bois e vacas a caminho do matadouro. Lentos, pesados, sem ânimo, lá vamos nós: a troika a puxar, os ministros a lamber as beiças e a polícia a garantir que nenhum dos bovinos se arma em herói.
Tenho pena de não ter estado na manifestação que decorreu no Chiado. Não sei como reagiria na altura, mas provavelmente com a mesma surpresa incapacitante com que reagiram os manifestantes. Já não estamos habituados a levar porrada, é o que é. Muito menos da polícia. Isso são histórias antigas, de antes do 25 de Abril. Hoje vivemos em Democracia, somos todos civilizados, essas coisas já não acontecem. Pensávamos nós.
Mas em vez de raiva, ódio, revolta contra o que nos está a acontecer, parece que o sentimento generalizado é de tristeza. Andamos resignados, como se não acreditássemos sequer que merecemos melhor. "Cada Povo tem o Governo que merece", dizem. Pelos vistos, anos a ouvir frases como esta convenceram-nos de que, de facto, merecemos este estado de coisas.
A nação anda com a auto-estima em baixo: somos os piores em tudo ou quase tudo e os melhores em coisas que não interessam nada; há corrupção, há desemprego, há miséria, há desigualdades; o futuro dos nossos filhos é negro. A nação está deprimida e, como tal, sente-se sem forças, não lhe apetece fazer nada.
Políticas de repressão e medo ajudam à depressão. Mas também podem acabar por ter o efeito contrário. Se eu tivesse estado na manifestação do Chiado, teria reagido com a mesma surpresa incapacitante com que reagiram os outros. Mas não estive. E agora o factor surpresa desapareceu. Em futuras manifestações, aqueles que lá estiverem (incluindo eu) sabem ao que vão. Sabem que pode haver porrada.
A polícia pode sentir-se à vontade e até muito confiante ao controlar um rebanho. Agora... uma manada de touros em fúria, armados com o que estiver mais à mão (ou até, quem sabe, uma guerrilha mais organizada para garantir que, por cada velha pontapeada, um polícia pega fogo) será bem mais difícil de controlar e de direcionar para o matadouro... Digo eu.