terça-feira, 16 de abril de 2013

de saída

Ontem houve uma situação caricata com uma pessoa que está prestes a sair da empresa. Estava convocada para uma reunião, não apareceu e depois, quando fomos ter com ela para a contextualizar sobre o trabalho que havia a fazer (e perceber porque não tinha saído do lugar), disse que tinha tentado perceber se sempre era para ir ou não à reunião, mas como não nos tinha visto (estávamos ao fundo da sala) tinha-se deixado estar. Isto enquanto corava violentamente. E o ecrã do seu PC mostrava uma qualquer página de um jornal online. 

Isto fez-me lembrar a situação do Governo. O nosso Governo comporta-se como um empregado que foi dispensado e está a cumprir os últimos dias de casa. Já não se esforça por chegar a horas e sai sempre um bocadinho mais cedo. Com uma restruturação colada a cuspo, parece que os novos ministros não sabem bem ao que vão, ainda estão a tentar assentar (e perceber porque raio aceitaram o cargo, com certeza), ficar confortáveis para começar a trabalhar. Isto debaixo de fogo intenso por parte do povo, dos comentadores e do próprio partido.

Nesta altura muitos se questionam sobre as verdadeiras vantagens da queda do Governo. É complicado quando a oposição dá sinais claros de não conseguir segurar nada e não haver nenhuma alternativa real à vista. Mas continuo a achar que o Governo tem de cair, por dois motivos. 

Primeiro porque, independentemente do que aí venha, já perdeu toda a legitimidade para continuar. As mentiras de Passos estão gravadas num vídeo hilariante de 10 minutos no YouTube. Relvas saiu, mas tarde e com pancadinhas nas costas. Portas revelou-se um fantoche ou uma boneca de trapos. Não há uma figura neste Governo a quem se possa dizer "sim senhor". Não dão uma para a caixa.

E segundo, porque o Governo está "em tilt", ou seja, a pressão, o falatório, a insatisfação é tanta, que Gaspar e Passos avançam como uma debulhadora levando tudo à frente. Já não têm capacidade para parar, respirar e mudar de rumo. 

Parece que estamos num compasso de espera. Cai, não cai, será que é desta? Não sabemos. Mas vem aí o 25 de Abril e, esperemos, nova onda de contestação nas ruas. A ver se com mais um abanão forte a coisa cede.

quinta-feira, 14 de março de 2013

acordar de manhã

Estamos a passar por uma crise económica profunda, por motivos profundamente injustos.
Somos governados por psicopatas (ou dito de uma forma que possa ser levada mais a sério, por pessoas com estruturas de personalidade psicopática).
Estamos a destruir o planeta em que vivemos.
Cada vez há menos bebés a nascer.
O fosso entre ricos e pobres é gigantesco.
Um grupo pequeno de pessoas domina o mundo inteiro através de jigajogas de dinheiro e poder. Ah, e são psicopatas.
Querem matar os mais velhos para poupar.
Espalham-se doenças para vender medicamentos.
Só lançam medicamentos no mercado consoante o que convém, embora provavelmente já exista cura para grande parte das doenças que nos assolam.
Os governantes pertencem a sociedades secretas que mexem os cordelinhos para garantir que o dinheiro (e, consequentemente, o poder) não sai do seu círculo restrito.
O 11 de Setembro foi uma fabricação.
Há pessoas a morrer de fome em África e nos EUA há pessoas que levam para casa compras no valor de mais de mil dólares de uma vez só, apenas por 20 ou 30 dólares, graças a um fenómeno chamado Extreme Couponing.
Não havia armas de destruição massiva no Iraque.
Portugal tem quase 1 quinto da sua população desempregada.
O salário mínimo em Portugal não chega a 500 euros mensais. O meu chefe ganha cerca de 60 mil euros por mês. E os futebolistas? Nem sei.
O novo representante do deus católico na Terra (e consequentemente, o líder espiritual de milhões de pessoas por todo o Planeta) diz que «as mulheres são naturalmente inaptas para desempenhar cargos políticos», entre outras barbaridades próprias da Idade Média.
Há um grupo de países com poderio nuclear suficiente para mandar o Planeta pelos ares umas centenas de vezes. O homem que controla o "botão vermelho" é, muito provavelmente, um psicopata.


É isto. Acordar de manhã e ser engolido no minuto seguinte. Em Portugal, cinco pessoas põem fim à vida diariamente. I wonder why.



quarta-feira, 6 de março de 2013

o mandato invisível

Acho extraordinário (e exasperante) que o Presidente da República, perante a crise, o desemprego, a insatisfação, as grandoladas, o BPN, o coelho enforcado e agora uma manifestação que mobilizou um milhão e meio de Portugueses, não esboce a menor reação. Não sai de casa, não faz uma declaração ao país, não dissolve a AR (seria pedir demais), não condena, não aplaude, nada. 

É um boneco de cera que já se demitiu, sem se demitir, há meses. Estará doente? Cansado? Aterrorizado? Esta é a apoteose de um mandato invisível, ainda mais que o anterior, em que Cavaco age perante os cidadãos como o bibelot do País, uma figura de madeira fria, intocável no seu recolhimento e, o que eu acho verdadeiramente gritante no meio disto tudo, completamente insensível perante o sofrimento dos que o elegeram. 

A atitude de Cavaco só mostra uma coisa: nojo pelos Portugueses. Não há ali uma réstia de calor, humanidade, não há preocupação, nem mesmo pena. Não há ali nenhum sentimento que possa levá-lo a agir. Só há nojo, medo e desinteresse, há apertos de mãos ao povo lavados a desinfectante em gel na segurança do seu Mercedes.

Assim não, senhor Presidente, assim não. 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

henrique, o raposão

A minha opinião sobre o que escreve Henrique Raposo no Expresso é, regra geral, muito negativa. Mas o que hoje escreveu revoltou-me especialmente, de tal forma que até me atreveria a dizer que me apetece partir-lhe a cara, mas isso seria imediatamente considerado um tique de esquerda ou coisa parecida, portanto fiquemo-nos pelo "revoltou-me especialmente".

Os portugueses estão finalmente a reagir a olhos vistos às medidas injustas que lhes têm sido impostas (com resultados zero). Reagem agora com formas de expressão mais direcionadas e "cirúrgicas" do que as manifestações gigantescas que o Governo insistiu em ignorar. O Movimento dos Indignados de Lisboa tem convocado ações específicas de protesto face a determinadas figuras do Estado, como seja a que assistimos durante a visita de Miguel Relvas ao ISCTE.

Ora coube ao senhor Henrique Raposo (e a outros tantos iluminados) classificar esta ação de protesto como uma violação da liberdade de expressão do senhor Relvas e, pior, como uma ação "fascista". 

Num tom desprezível, jocoso e paternalista, Henrique Raposo fala dos «novos cantadeiros do "Grandola Vila Morena"» como «aprendizes de fascistas», criticando a «total intolerância em relação ao outro lado», quando nenhuma tolerância foi tida para com este lado; tomando por ódio, «um ódio que escorre pelos cartazes, pelos rostos, pelas vozes», aquilo que na verdade é desilusão, desesperança ou desespero e desemprego. Mistura conceitos históricos «é a marca do fascista, seja ele castanho ou vermelho» (agora é moda, esta do "fascismo vermelho") para confundir os leitores ou talvez ele próprio acredite no conceito, coitado; e exagera factos: «temos a consequência lógica das duas premissas anteriores: o culto da violência».

Henrique Raposo rotula de «extrema-esquerda» pessoas que (muitas delas sem sequer ter filiação política)  se fizeram ouvir num protesto pacífico (ainda que inflamado) contra aquele que eu considero atualmente ser o maior símbolo de um Governo opressor, mentiroso e corrupto. Acusa-os de serem «fascistazinhos de vão de escada» e convida-os a continuar «a mostrar que não sabem viver em democracia, que não sabem aceitar opiniões contrárias» e «a ameaçar».

Olhe senhor Henrique Raposo, bem sei que nunca lerá este texto, mas permita-me cuspir no seu. Mete nojo  o desprezo que demonstra pela situação Portuguesa, ao ponto de ter escrito, do alto do seu pedestal, contra pessoas que têm a coragem para dizer "Não" a um Governo que (embora eleito democraticamente) é uma farsa, uma mentira aos eleitores. A razão que leva o Expresso a mantê-lo no poleiro, com crónica miserável atrás de crónica miserável, muitas vezes fundamentada mal e porcamente, é para mim um mistério.

Só posso concluir o seguinte: o seu convite não cairá em saco roto. Mas permita-me uma reformulação: continuaremos, sim, a lutar pela Democracia. Continuaremos sim, a mostrar que não aceitamos (e muito menos prestamos vassalagem) a figuras viscosas como Miguel Relvas. Continuaremos a lutar para que também os seus filhos (e aí é que está a ironia da coisa) possam viver num País com futuro, sem serem convidados a emigrar. 

Quanto aos estudantes do ISCTE e todos os que se têm mobilizado, em manifestações maiores ou menores, só tenho a dizer uma coisa: obrigado.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

a ditadura da fatura

Agora quando forem ao supermercado ou à praça e se prepararem para pagar as compras, não se esqueçam de olhar discretamente à vossa volta, por entre os repolhos e folhas de alface ou outras leguminosas que sirvam o propósito da camuflagem. Olhem bem, primeiro para um lado e depois para o outro. Se o caminho estiver livre, toca a pagar como habitualmente. Se houver alguém a uma distância comprometedora, peçam fatura.

Não confiem nas velhotas que empurram as suas malas retangulares com rodinhas. Não confiem no homem que lê o jornal enquanto bebe a bica. Não confiem na peixeira que lava o chão, nem confiem no homem do talho de palito na boca.

O governo disse e está dito: desde o início deste ano, quem não exigir fatura nos estabelecimentos comerciais, está sujeito a uma multa entre os 75 e os 2000 euros. Portanto já sabem: cuidadinho.

Com esta animalidade, o governo faz de todos nós delatores, instaura uma nova espécie de PIDE, um controlo certamente inspirado  no Panóptico de Foucault: não é precisa a certeza de que estamos a ser vigiados,  não é preciso o polícia, o olhar inquisidor do chefe de finanças, nem do padre. Basta a suspeita, o medo, a vaga sensação de que podemos estar a ser observados, e toda a sociedade se auto-regulará em harmonia. Que belo feito, este.

Da minha parte vos digo: pelo sim pelo não, ao mínimo trejeito de dúvida por parte do comerciante quando eu mencionar o fatídico documento comprovativo, salto-lhe logo ao pescoço, que apertarei violentamente (enquanto espumo da boca e os olhos me saem das órbitas) até me faltarem as forças. Isto para que não restem dúvidas - à velhota, ao homem do jornal, à peixeira nem ao homem do talho - de que eu, de facto, exigi fatura.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

sair da armadilha

Ler de empreitada 80 páginas A4 num trémulo ecrã de computador era algo de inédito na minha pessoa, mas foi o que me aconteceu hoje, quando finalmente me decidi a olhar para o relatório Conhecer a Dívida para Sair da Armadilha, um documento de 130 páginas sobre a famosa "dívida pública". 

Este relatório, não só está bem escrito, apesar de algumas gralhas que a minha profissão não permite ignorar, e apesar de alguns capítulos mais técnicos (que deram luta a alguém "de letras"), como explica uma série de conceitos fundamentais para que não nos deixemos levar pelo discurso dos porcos na televisão. Permitam-me a referência Orwelliana, insultuosa que seja, já que o blog é meu.

Este documento tem uma componente verdadeiramente didática, já que ensina uma série de coisas sobre Economia - de onde vem a dívida, em que consiste, há quanto tempo existe e para onde vai, qual a diferença entre a dívida e o défice e de que forma estes dois conceitos estão relacionados, etc etc. 

Mas desempenha ainda uma importante função de denúncia relativamente ao estado lastimável em que se encontra o nosso país, a nível de corrupção, tráfico de influências, abusos de poder... no fundo, a enorme promiscuidade que se faz sentir entre políticos e administradores de empresas privadas, sendo o aparelho de Estado apresentado como aquilo que realmente é: um autêntico bordel, gerido com o aval do nosso sistema Judicial que, ainda que estrebuche, não tem capacidade para decapitar a besta.

Por tudo isto, tornou-se obrigatória esta referência no meu cantinho, para que vós, caríssimos e escassos leitores, não percam a verdadeira aventura que é descobrir a verdade sobre o nosso Portugal. Garanto-vos momentos de exaltação, assombro, eu diria até unhas roídas até ao sabugo e no final uma valente dor de cabeça. 

Mas já que estamos num país de indignados, em que moças de Cascais que querem "'mamála" e cães assassinos preenchem o nosso prime-time, indignem-se, desafio-vos eu, com algo à séria, com algo à Homem... indignem-se com isto.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

the gunpowder treason

Em tempo de crise a todos os níveis, sinto-me mal por ter como post mais recente uma baboseira qualquer sobre as coisas boas da vida. Mas parece-me que não há grande coisa a dizer. Já foi tudo dito, mais que uma vez. Eles continuam a não ouvir. Resta-me esperar pelo fim do mês e pela indignação generalizada, quando finalmente virmos quanto vamos passar a descontar para a cambada de proxenetas que nos governam. É esperar para ver se o povo é sereno ou se é desta que alguém rebenta com o Parlamento. Não há maior traição do que a que, em silêncio, fazemos contra nós próprios e contra o futuro. Aguardemos.