terça-feira, 22 de dezembro de 2009

curta



"Volátil venenoso perturbador e a cura que não chega esse bálsamo apaziguador de que o pastor tão eloquentemente falou mas que te deve ter entrado a 100 e saído a 200 e hás de colher toda a solidão e trevas que plantaste a cada dia com as tuas palavras ácidas e silêncios gélidos.

Uma mãe não devia falar assim mas, naquela noite escura, ela teve de entrar no quarto e de lhe segredar ao ouvido tudo aquilo que ele pareceu desaprender com anos de entrega a si próprio e ódio ao mundo.

Porque tu não nasceste cego foi o mundo que te fez ficar assim o teu mundo sempre primeiro que o dos outros porque os outros não sabem como é não fazem ideia do que é nem nunca hão de fazer e ainda bem em vez desse desapego a todos apesar desse desapego a todos tu tens de viver por isso vive meu filho vive intensamente mesmo que doa porque ela não vai esperar por ti e não são pedras mas rosas que ela te pede e se deres pontapés pontapés recebes mesmo que essa lição te tenha sido ensinada ao contrário quando tinhas dez anos."



Já vejo a Ubume a pairar uns centímetros acima do chão de madeira,
longos cabelos negros a cobrir-lhe a cara, o tronco, os pés.
A pairar devagarinho sobre o corpo dele, deitado...
(cabelos que lhe fazem comichão nos braços nus)
e a segredar-lhe a verdade ao ouvido.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Romeu


(photo by me)


Uma noite destas encontrei isto no Bairro Alto.

E pus-me a pensar.

Há pessoas a quem dava jeito uma prótese de coração... talvez o plástico fosse melhor do que a rocha.

Ao menos o plástico derrete.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

life feeds on life



Há cerca de um ano escrevi sobre como as borboletas nas barrigas de uns são facadas nos estômagos de outros. Hoje apetece-me dizer que a vida é feita de ciclos que se repetem numa espiral infinita... e que quem não aprender com eles é burro.

Por isso, vivam os "fast learners", porque o futuro só a eles pertence. Inclusive o futuro comigo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

nada




No outro dia vi uma reportagem sobre as crianças em África. Com aquelas imagens que já foram marteladas no nosso cérebro tantas vezes (desde que éramos miúdos, quando nos recusávamos a comer a sopa e a nossa mãe dizia "há meninos a morrer à fome!"), que parece que criámos uma capa protectora e já não nos deixamos atingir por elas.

Mas ainda nos atingem, que eu sei.

Mostraram-nos as condições em que aqueles miúdos viviam, sob o risco de contrair o HIV e não durar até aos 30, e contaram a história de uma menina de 5 anos que percorria não sei que distância sozinha para ir comprar pão para a família almoçar e jantar.

Com 5 anos, um miúdo daqui não pode sair de casa sozinho, muito menos com dinheiro, seja para percorrer que distância for. Pode ser atropelado, levado por um pedófilo... ou levar um pontapé de um puto mais velho, quem sabe.

Mas atingiu-me particularmente a última cena do documentário. Entrevistavam um dos miúdos que trabalhava no campo e ele, com ar responsável, dizia que não queria namoradas, porque depois elas engravidavam e ele não tinha dinheiro e era uma chatice... E a última pergunta que lhe fizeram foi: se ele pudesse ter alguma coisa de que gostasse, uma coisa que lhe faltasse, o que seria?



E ele respondeu: "Nada".

terça-feira, 27 de outubro de 2009

amarras




Tal como dizia Perry the Peacock, quando vai chegar o dia em que vão olhar apenas para o meu trabalho e não para as minhas penas?



quarta-feira, 14 de outubro de 2009

votar na família


Perante os resultados das últimas eleições, o País assistiu com incredulidade à (re)eleição de Isaltino Morais em Oeiras. Mais uma vez, o povo escolheu o criminoso em detrimento do(s) inocente(s) - faz lembrar um bocadinho o que aconteceu a Cristo na cruz. Alguns oeirenses encaram com revolta esta realidade, não se revêem nos resultados e até têm vergonha do seu concelho. Mas a maioria ficou satisfeita...

Porquê?

Essa é a pergunta que muitos colocam, por todo o País. Como é que um dos concelhos com maior qualidade de vida a nível nacional continua a escolher como líder um homem acusado de corrupção? Antes ainda havia a dúvida, ele podia estar inocente, mas agora não. Foi condenado a sete anos de prisão efectiva e só não está já lá dentro porque interpôs recurso.

Os oeirenses são burros? Não. Os oeirenses não têm valores morais? Têm. Então...? Cá vão algumas hipóteses.

Por um lado, os oeirenses estão-se nas tintas. Não se importam de eleger um criminoso, desde que ele mostre resultados. E eles estão à vista, basta dar um passeio pelo concelho: o Parque dos Poetas, o Paredão, os campos de girassóis, as iniciativas para idosos, a vida cultural, o shopping, o SATU (ok, esqueçam este último...). O importante é que o homem fez coisas boas para o concelho... se roubou uns trocos entretanto, who cares? Mas penso que, se o crime fosse outro, os resultados também já não seriam os mesmos.

Por outro lado, os oeirenses desprezam o sistema judicial português. E, de facto, é difícil respeitar o poder judicial quando assistimos à escandaleira que foi/é, por exemplo, o Processo Casa Pia. Isto para não falar no tempo que se perde e dinheiro que se gasta sempre que temos um pequeno problema a resolver. De tal forma que as pessoas preferem engolir sapos do que levar um caso a tribunal ou, sequer, envolver advogados. Ora, se os tribunais não condenam pedófilos e depois dão 7 anos ao Isaltino... eles merecem ser castigados. Como? Cada voto no autarca corrupto é o equivalente a uma cuspidela na cara do juiz.

E finalmente, porque os oeirenses, tal como não acreditam nos tribunais, também não acreditam nos políticos. Corruptos? São todos. E mesmo que seja eleito um novo, cheio de ideias nobres, ele vai acabar por apodrecer, de tanto convívio com as outras maçãs. E isto sem sabermos que irá, sequer, contribuir para o concelho. Então mais vale pôr lá um que já se conhece bem, que é praticamente da família (ou que, em muitos casos, é o patrão de vários familiares nossos) e que se tem a certeza de que fará alguma coisa...




... será?