sexta-feira, 6 de novembro de 2009

nada




No outro dia vi uma reportagem sobre as crianças em África. Com aquelas imagens que já foram marteladas no nosso cérebro tantas vezes (desde que éramos miúdos, quando nos recusávamos a comer a sopa e a nossa mãe dizia "há meninos a morrer à fome!"), que parece que criámos uma capa protectora e já não nos deixamos atingir por elas.

Mas ainda nos atingem, que eu sei.

Mostraram-nos as condições em que aqueles miúdos viviam, sob o risco de contrair o HIV e não durar até aos 30, e contaram a história de uma menina de 5 anos que percorria não sei que distância sozinha para ir comprar pão para a família almoçar e jantar.

Com 5 anos, um miúdo daqui não pode sair de casa sozinho, muito menos com dinheiro, seja para percorrer que distância for. Pode ser atropelado, levado por um pedófilo... ou levar um pontapé de um puto mais velho, quem sabe.

Mas atingiu-me particularmente a última cena do documentário. Entrevistavam um dos miúdos que trabalhava no campo e ele, com ar responsável, dizia que não queria namoradas, porque depois elas engravidavam e ele não tinha dinheiro e era uma chatice... E a última pergunta que lhe fizeram foi: se ele pudesse ter alguma coisa de que gostasse, uma coisa que lhe faltasse, o que seria?



E ele respondeu: "Nada".

terça-feira, 27 de outubro de 2009

amarras




Tal como dizia Perry the Peacock, quando vai chegar o dia em que vão olhar apenas para o meu trabalho e não para as minhas penas?



quarta-feira, 14 de outubro de 2009

votar na família


Perante os resultados das últimas eleições, o País assistiu com incredulidade à (re)eleição de Isaltino Morais em Oeiras. Mais uma vez, o povo escolheu o criminoso em detrimento do(s) inocente(s) - faz lembrar um bocadinho o que aconteceu a Cristo na cruz. Alguns oeirenses encaram com revolta esta realidade, não se revêem nos resultados e até têm vergonha do seu concelho. Mas a maioria ficou satisfeita...

Porquê?

Essa é a pergunta que muitos colocam, por todo o País. Como é que um dos concelhos com maior qualidade de vida a nível nacional continua a escolher como líder um homem acusado de corrupção? Antes ainda havia a dúvida, ele podia estar inocente, mas agora não. Foi condenado a sete anos de prisão efectiva e só não está já lá dentro porque interpôs recurso.

Os oeirenses são burros? Não. Os oeirenses não têm valores morais? Têm. Então...? Cá vão algumas hipóteses.

Por um lado, os oeirenses estão-se nas tintas. Não se importam de eleger um criminoso, desde que ele mostre resultados. E eles estão à vista, basta dar um passeio pelo concelho: o Parque dos Poetas, o Paredão, os campos de girassóis, as iniciativas para idosos, a vida cultural, o shopping, o SATU (ok, esqueçam este último...). O importante é que o homem fez coisas boas para o concelho... se roubou uns trocos entretanto, who cares? Mas penso que, se o crime fosse outro, os resultados também já não seriam os mesmos.

Por outro lado, os oeirenses desprezam o sistema judicial português. E, de facto, é difícil respeitar o poder judicial quando assistimos à escandaleira que foi/é, por exemplo, o Processo Casa Pia. Isto para não falar no tempo que se perde e dinheiro que se gasta sempre que temos um pequeno problema a resolver. De tal forma que as pessoas preferem engolir sapos do que levar um caso a tribunal ou, sequer, envolver advogados. Ora, se os tribunais não condenam pedófilos e depois dão 7 anos ao Isaltino... eles merecem ser castigados. Como? Cada voto no autarca corrupto é o equivalente a uma cuspidela na cara do juiz.

E finalmente, porque os oeirenses, tal como não acreditam nos tribunais, também não acreditam nos políticos. Corruptos? São todos. E mesmo que seja eleito um novo, cheio de ideias nobres, ele vai acabar por apodrecer, de tanto convívio com as outras maçãs. E isto sem sabermos que irá, sequer, contribuir para o concelho. Então mais vale pôr lá um que já se conhece bem, que é praticamente da família (ou que, em muitos casos, é o patrão de vários familiares nossos) e que se tem a certeza de que fará alguma coisa...




... será?


terça-feira, 29 de setembro de 2009

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

chinfrineira infernal


Nunca me tinha questionado muito sobre a razão pela qual escolhi este nome para o blog. De início pareceu-me a conjugação de duas palavras que me agradavam, só isso. Mas já percebi que houve algo mais e, em certas alturas da vida, o motivo torna-se mesmo evidente para mim: dentro da minha cabeça vai uma chinfrineira infernal.

É o que acontece quando se tem discussões e não se fala, porque não se consegue falar sem insultar e chorar e cortar e partir coisas. O chinfrim saía todo cá para fora, essa coisa nojenta e incontrolável, que se revolve como um feto das trevas a incubar no meu tórax. Por isso o melhor é ficar calada.

É o que acontece quando tem de se fingir durante 10 horas por dia e depois chegar a casa e continuar a fingir. A coisa tem de rebentar por algum lado. E há-de me rebentar pelas veias porque pela boca não sai nada.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Muito babyliss...


...pouca substância.



Há pessoas assim. Dada a minha conjuntura actual, chamemos-lhes "sapos" e "sapas". Os sapos são pessoas que se juntam a outras, não pelo amor que sentem por elas, mas pelo fascínio (que pensam) que a dinâmica do casal vai exercer junto dos outros. Às vezes até calha juntarem-se a alguém espectacular - culto, boa pessoa, paciente, leal. Mas isso não importa absolutamente nada se esse alguém não for um acessório que fique bem com o sapo ou a sapa em questão.

E depois sofre-se. Sofrem os não-sapos, entenda-se. Porque os sapos normalmente fazem trinta por uma linha e os não-sapos, na sua inocência, vão ficando. Não percebem que estão só a ser usados, que a sua aura está a ser sugada apenas para melhorar a imagem do sapo. Não vêem que estão a passar progressivamente a desempenhar um papel secundário, a ser o "plus one" de alguém, quando antes era o contrário. Não estou a dizer que esse seja o meu caso (por acaso já foi, mas safei-me), mas a quem assiste de fora é inevitável sentir alguma mágoa ou até "pena" face aos não-sapos.

E os sapos não se aproximam dos "acessórios" mais trendy apenas nas relações amorosas. Às vezes também se juntam aos amigos mais cool, não por nutrirem um verdadeiro interesse pela pessoa, mas porque assim tornam-se, eles mesmos, mais cool. Entram à borla em discotecas e isso.

Mas ser um sapo é ser-se infeliz. É ser-se superficial, vazio e invariavelmente infiel - aos amigos e aos companheiros/as. Porque se esquecem (na sua senda de sapo) de que eles existem sequer. Maltratam-nos com esse esquecimento, ou maltratam-nos de formas mais explícitas e vergonhosas ainda.

No fundo, ser um sapo é andar enganado. Ser um sapo (ou uma sapa) é acreditar que a sua imagem é algo eterno e suficientemente poderoso para construir dias felizes, todos os dias, até ao fim das suas vidas. É esquecer-se de que um desses dias, em que "vivem a assapar" (lol), engravidam do não-sapo ou de outro qualquer... e o look fica de tal forma lixado que não há "acessório" que lhes valha.



E, nessa altura... só resta a (pouca) substância.