sábado, 15 de agosto de 2009

não há coincidências

Não há. Está explicado: todas as moedas têm duas faces, todas as pessoas têm duas caras.


Uma há de nos sorrir, a outra há de nos olhar com desprezo e dilacerar-nos as vísceras infectadas por tumores fúngicos, deixando-nos a morrer na sargeta com os pulsos a escorrer pus e todas aquelas coisas que um dia foram boas mas apodreceram. Os nossos olhos amarelados e bulbosos, raiados pelos trovões vermelhos de mil lágrimas. Os nossos dentes partidos e negros, como que a desafiar os sorrisos próprios da Era do três de copas. As nossas mãos retorcidas e ossudas, falanges a espreitar por entre carne esfarrapada e unhas partidas. As nossas pernas desapareceram. Um pé atreveu-se a ficar, em memória dos tempos em que o sémen eram bolas de sabão divertidas. Mas não há memória feliz que resista quando o coração é uma meia furada, calhau na estrada, cicatriz escondida.


Todas as pessoas têm duas caras.

2 comentários:

Ribeiro Santo disse...

All that shines turns to rust.
All that stands, in time turns to dust.

*

um cigarro. disse...

eu gosto mais dos números ímpares.

(e eu continuo a achar que nós somos "um, ninguém e cem mil" . tudo ao mesmo tempo.)