quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Votar contra a coligação? A verdadeira questão.

A escassos dias das eleições, penso que as pessoas devem colocar-se uma questão, que não tem passado pela comunicação social (os motivos desta ausência também vale a pena discutir, mas não hoje). É uma questão um bocadinho mais profunda do que aquela sobre as contas, quem chamou a Troika ou que pizza Sócrates encomendou. Diz respeito a todo o modelo de sociedade em que vivemos. Pois (muita gente ignora mas) é ele que está em causa, em cada momento de eleições.

Portanto, importa perguntar: acreditamos no sistema socioeconómico tal como ele hoje funciona? Sim ou não?

Sim,
acreditamos estar certo que o dinheiro que existe no mundo seja emprestado a juros aos países, para pagar os juros de empréstimos anteriores. Porque isso é um negócio (dos bancos) e os negócios devem fazer-se sempre em liberdade. Acreditamos que é esse o caminho porque os países do séc. XXI funcionam assim, todos têm uma conta corrente de dívida, que se vai pagando. São assim as leis do mercado e o mercado tem de funcionar. Acreditamos ainda que, se as pessoas trabalharem, pagarem os seus impostos e viverem uma vida relativamente modesta, permitirão ao Estado o pagamento de parte dessas dívidas, garantindo assim a credibilidade suficiente para contrair outras. Disto resultará o meu sucesso pessoal e o do país, pois é assim que as coisas vão avançando de forma estável e continuam sempre mais ou menos na mesma. Acreditamos que o esforço de cada um, o talento e o mérito, independentemente de se vir de um berço de ouro ou de um bairro problemático (esses só têm é de se esforçar mais), é suficiente para que todos os cidadãos possam dar a volta à sua vida, não passar dificuldades e até atingir lugares de topo. Por isso, o Estado deve passar o mais possível as rédeas aos privados e intervir o mínimo na economia, e em consequência, na vida das pessoas.

Não,
não acreditamos nisso da meritocracia, pois sabemos que as pessoas que "nascem em bairros problemáticos" têm 1 hipótese em 100 de subir na pirâmide social. Não acreditamos que o modelo da "dívida eterna" seja viável, porque enquanto os países estiverem presos a ela, não vão conseguir crescer nem terão a possibilidade de gerar melhores condições para os cidadãos. Acreditamos que o nosso dinheiro pode ser canalizado, não para o negócio da dívida, mas para a produção - de coisas que podem ser vendidas, de ideias que podem ser exportadas - e para a melhoria das condições de vida no país. Acreditamos que há alternativas a este modelo económico, que a dívida pode ser negociada (sem necessariamente se sair do Euro ou da UE) e que pode estancada. Como? A dívida pode ser paga sem pesar nas contas das famílias, porque o dinheiro pode ser cobrado aos mais ricos, sejam eles particulares ou empresas. Acreditamos num novo caminho, em que a riqueza dos cidadãos que compõem um país é distribuída de forma mais justa, cobrando mais impostos e mais taxas, não a todos de forma indiscriminada, mas a quem tem muito mais dinheiro. Só assim aumentamos as hipóteses de todos os cidadãos, em pé de igualdade, poderem explorar o seu potencial, alcançar mais e ter uma hipótese real de construir o seu sucesso e o do país.

A esta questão estão ligadas muitas outras, sobre os direitos e deveres das pessoas e sobre o âmbito de atuação do Estado. Mas acho que a questão fundamental é esta. Concordam ou não concordam com o sacrifício das condições de vida desta geração (e das próximas) a bem do pagamento da dívida e da manutenção do sistema económico tal como está?

Quem vai votar na coligação deve ter noção daquilo em que vai votar. Das consequências para si, mas também para os seus irmãos. Ponham a mão na consciência e lembrem-se que rezar umas avé-marias antes de adormecer não alimenta as pessoas que o vosso voto vai condenar. Ou, se isso for algo que nem vos preocupa, pensem ao menos que a qualquer momento o jogo pode virar e podem ser vocês ou os vossos filhos a estar nessa posição.

Quem vai votar na Esquerda (a verdadeira esquerda ou aquela que tem uns deputados de esquerda e outros que só querem manter o tachinho) ao menos não tem medo da mudança. Mais, sabe que a mudança é urgente, para curar uma sociedade que está doente, uma sociedade em que os que tiveram menos sorte na vida colhem as migalhas dos que se banqueteiam de forma imoral nos lucros não taxados dos negócios que herdaram no seu berço de ouro. Isto tem de acabar.


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O casamento do ano


Portugal assistiu ontem ao casamento do ano. Foram gastos 500 mil euros para celebrar a união de um casal que vale mais de 500 milhões. Dezenas de polícias foram contratados para garantir a segurança da ocasião, fechando ruas e condicionando a vida das pessoas. O museu Serralves foi encerrado para dar lugar à boda. Uma ilha grega foi oferecida como prenda de casamento aos noivos.

Os meios de comunicação social, de um lado jornalistas, de outro comentadores em programas de entretenimento, fizeram a cobertura do evento conforme se esperava. Nos telejornais comentou-se o aparato policial e alguma insatisfação dos moradores perante o transtorno que tudo aquilo causara. Já nos programas da manhã, completou-se o esquema: comentou-se o vestido, a festa, as personalidades, mas, mais importante que tudo isso, amestraram-se as massas. Sobre a exuberância da festa disse-se que Jorge Mendes «é um homem rico e trabalhou para isso, tem o direito de fazer o casamento que quiser». E sobre as queixas relativas ao aparato policial, ou sobre as opiniões mais críticas sobre essa mesma exuberância, disse-se «a inveja é uma coisa muito feia».

Vale a pena perder dois minutos para pensar sobre isto. Jorge Mendes tem, de facto (e como qualquer pessoa), o direito ao casamento que mais lhe aprouver. Deve ser maravilhoso receber uma ilha, ter um vestido deslumbrante que ainda por cima serve de montra para a marca de roupa de luxo que a noiva acaba de lançar. Deve ser espetacular juntar 500 pessoas para celebrar o casamento, ainda por cima em Serralves. Nada contra, mesmo. Não fosse o facto de ser, também, um fenómeno de ostentação pura que, nos tempos que correm, é simplesmente imoral. 

500 mil euros é um valor a que 99% da população Portuguesa não pode aspirar a juntar ao longo de uma vida inteira. E foi o preço de um dia de festa. Deixem que este pensamento amadureça uns segundos nas vossas mentes. A ilha que foi oferecida como prenda de casamento pertencia à Grécia. Pensem sobre isto. Ter uma opinião menos boa sobre o casamento, e reconhecer o que ele representa para além do conto de fadas, não é ter inveja. É ter consciência social. É saber reconhecer a injustiça e a desigualdade brutal.

Ninguém pede (muito menos eu) que Jorge Mendes tivesse reconsiderado a pompa do seu casamento, só para não esfregar na cara de 99% dos portugueses que nunca na vida poderão aspirar a algo que sequer se assemelhe àquele estilo de vida. O que vos peço é que reconheçam que este é um sintoma de uma sociedade que está profundamente doente e que regrediu séculos no espaço de uma década. O capitalismo evoluiu (e continua) no sentido de um novo feudalismo, em que os Senhores têm cada vez mais e todos os outros, da classe média (inclusive) para baixo, têm cada vez menos. 

O que fazer em relação a isto? Há quem diga que a solução é nem pôr os pés nas urnas nas próximas eleições, porque "eles" são todos iguais e já nada adianta nada. Já nada adianta nada é o que os 1% querem ouvir das vossas bocas.  Eu digo que está na hora de abrir os olhinhos, saber digerir o que nos é passado nos media e na internet e separar o trigo do joio, reconhecer quando nos tentam manipular. É tempo de reconhecer que o voto útil e a abstenção só nos têm mantido na mesma situação de 4 em 4 anos desde que nasci, pelo menos. 

O medo da mudança tem beneficiado imenso aquele 1% da população que vive como Jorge Mendes. Se há pessoas que têm tanto, porque é que outros têm de ter tão pouco? Há partidos que se colocam essa pergunta. E não são certamente o PSD, o CDS-PP nem o PS. Está na hora de ganhar coragem e votar diferente. É tempo de perder o medo "dos outros" e de ver o serviço que têm para nos prestar.


A qualidade da educação dada às classes inferiores deve ser a mais pobre, de maneira que a brecha da ignorância que afasta as classes inferiores das classes superiores seja e permaneça incompreensível para as classes inferiores. Com tal incapacidade, até os melhores elementos das classes inferiores terão pouca esperança de se separar do papel que lhes foi destinado na vida. Esta forma de escravidão é essencial para manter um certo nível de ordem social, paz e tranquilidade para as classes superiores dirigentes.

in Silent Weapons for Quiet Wars

quarta-feira, 2 de julho de 2014

indecisos anónimos

Passei os últimos 2 dias a aprender sobre escolhas e a tomada de decisões. Como indecisa inveterada, este é um tema que me interessa. Deparamo-nos com imensas escolhas ao longo da vida, umas mais importantes que outras (a sociedade de consumo assim o permite), mas o que é facto é que temos imensa "liberdade de escolha": podemos e devemos tomar decisões sobre tudo. 

A primeira coisa que aprendi na minha "demanda" foi que, quando a vida nos apresenta uma escolha difícil, está na verdade a dar-nos uma oportunidade de decidir quem queremos ser. Se nos oferecem um trabalho novo e ficamos dias a pesar os prós e contras, matamos a cabeça com a dúvida sobre qual será o caminho certo, é tempo de parar. Não há um caminho certo, há apenas o caminho da nossa vida - a escolha sobre quem queremos ser. Não há respostas erradas, por isso podemos respirar de alívio. Podemos? 

Seria muito bonito mas, para algumas pessoas (eu incluída), tomar decisões sobre a sua própria vida é muito complicado. Mais uns quantos vídeos e aprendi que isso pode dever-se ao facto de que o nosso Eu não é necessariamente APENAS o eu, mas incluir também as pessoas que são importantes para nós. Ou seja, quando tomamos uma decisão difícil sobre a nossa vida (e sobre quem queremos ser), alguns de nós incluem, como parte integrante do seu Eu, as suas pessoas mais próximas. O que é que os meus pais, o meu namorado, os meus amigos pensariam desta escolha? Logo, escolher é (para alguns, como eu) um acto inclusivo, de um Eu colectivo, o que chama a si mesmo uma série de variáveis e dificulta, ainda mais, a escolha.

Pessoas que vivem "em função" dos outros (ou têm muito em conta a opinião dos outros sobre as suas próprias escolhas) podem ser apelidadas de fracas, burras, ou mesmo "anhadas" (essa pérola da nossa sempre-evolutiva-língua). Mas na verdade podem apenas ter sido habituadas a ter um Eu inclusivo e simplesmente não conseguir tomar algumas decisões individualmente. O que me leva a perguntar: porque é que nos é exigido escolher sobre temas que não dominamos? Porque saber escolher faz parte de ser adulto. Será? Vejamos um exemplo concreto recente. E se eu tiver à minha frente umas dezenas de máscaras africanas numa feira, querer comprar uma, mas não perceber patavina daquilo? Junte-se à equação a "pressão" dos que me rodeiam, do meu Eu colectivo, e está criada a receita para o desastre. Torna-se especialmente difícil sequer perceber, sentir de que máscara é que eu gosto mais. O que nos leva à terceira coisa que aprendi.

Escolher perante uma grande diversidade de opções provoca necessariamente sentimentos de frustração na pessoa que escolhe. Isto porque não há apenas uma escolha acertada - todas as opções, geralmente, apresentam vantagens - pelo que, independentemente da escolha, podíamos sempre ter ficado "mais bem servidos", dependendo do valor que damos às vantagens das coisas que optámos por não escolher. E quem é o responsável pela nossa frustração? Nós próprios, porque fomos nós que, ao fazer uma escolha, deixámos as outras de fora. E agora? Não se pode escolher tudo, temos de escolher só uma ou duas, ou TRÊS (red alert!! não sabes escolher!) máscaras. Em que ficamos? Somos indecisos, fracos, pouco perspicazes. Se uma pessoa for perfeccionista então, escolher, ou tomar decisões, é um pesadelo. Não há desculpa para falhar quando tínhamos tantas opções disponíveis... e uma escolha "errada" é inteiramente da nossa responsabilidade. Logo, somos um falhanço.

A diversidade de opções e a dificuldade em lidar com as escolhas que ficam de fora leva-nos a cair na situação infeliz de NUNCA estar inteiramente satisfeito. Quando escolhemos fazer qualquer coisa, podíamos estar a usufruir das vantagens de ter escolhido outra. Isto acontece-me frequentemente. E com alguma frequência também sinto que não estou a dar 100% de mim quando fui eu que optei por fazer o que estou a fazer. No trabalho estou bem, estou aqui porque me mandam e faço o que me mandam. Mas se pudesse optar, estaria provavelmente um pouco pior. Os fins de semana são por isso, especialmente martirizantes. Se estou a ver televisão podia estar a jogar computador. Se estou a jogar computador podia estar a dar um passeio. Se como hidratos podia estar a comer salada. Se como peixe grelhado podia estar a comer hidratos, porque afinal até é fim de semana e a pessoa tem direito a relaxar. É esgotante.



É muito difícil ser-se indeciso. Mais difícil ainda é ser-se julgado por não "saber escolher". A solução será evitar a escolha e deixar que decidam por nós? Isso será tido como um acto de enorme cobardia perante todos os que não padecem deste mal. Mas em alguns casos será, certamente, a melhor escolha. Só vos peço que  a façam por mim - de bom grado abdico de algumas escolhas, mas façam-no por mim, para que não tenha de ser eu a fazer essa escolha.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

o conforto da lama

As eleições europeias estão aí, mas atrevo-me a dizer que a maioria das pessoas não sabe, ou não quer, votar. A perda de fé nos partidos é um sentimento generalizado, mas em vez de provocar uma reacção nas pessoas, é apenas mais uma desculpa para a inércia. Já ninguém acredita em ninguém, dizem que é tudo farinha do mesmo saco. Alternativas? Não têm. Não acreditam que já tenha chegado o momento de fazer algo. Estão à espera de que alguma coisa mude, mas não sabem bem o quê. Têm esperança de que alguém faça qualquer coisa mas, enquanto esperam, vão deixando acontecer.

Estamos perante uma epidemia de apartidários e de pessoas que não tomam posição sobre nada. Até nas coisas mais básicas são inertes - quantos portugueses ainda abastecem nas grandes gasolineiras apesar de saber que são elas que se aproveitam das oscilações no preço do petróleo para aumentar preços e nunca os voltar a descer? Quantos portugueses ainda compram no Pingo Doce apesar de ser do conhecimento público que a empresa paga parte dos seus impostos na Holanda? A resposta é sempre a mesma: «não vale a pena, vamos ser roubados por uns ou por outros». Não vale a pena. E eu pergunto: então o que raio é que vale a pena?

Não vale a pena ter a dignidade de ir comprar a outro lado e não ser sodomizado por um gigante económico que está a sugar o País? Não vale a pena ter a responsabilidade de ir votar e pelo menos tentar que vingue uma linha ideológica com a qual nos identificamos?

Não tomar posição sobre nada deve ser altamente confortável. Eu considero-o embaraçoso, mas presumo que, para quem assim é, seja confortável. Fingimos que não se passa nada, ou que tudo o que se passa não se deve a nós. Mas nada disso é verdade - as pessoas devem pensar nas consequências do deixar acontecer, porque foi precisamente por causa do "deixar acontecer" que a democracia chegou onde chegou. E em vez de esperar - pelo atentado à bomba que mate aquela cambada toda, ou pelo salvador da pátria que há de chegar e nos livrar desta escória toda, ou da revolução que alguém há de fazer e criar um sistema que nos livre desta corrupção toda - tomar posição. Sobre tudo e mais alguma coisa. Ser "cidadão" não serve apenas para receber subsídios ou para ter tema de queixume nos almoços de família aos domingos. Ser cidadão vem com responsabilidades que têm de ser cumpridas: informarmo-nos sobre o que se passa no país em termos políticos, económicos, sociais - e tomar posição.

Só essa tomada de posição é que pode garantir a defesa da democracia. Por isso eu digo: votem, assumam a vossa responsabilidade, assumam o vosso papel enquanto cidadãos, enquanto pessoas donas do vosso próprio futuro e do dos vossos filhos. E tomem posições, opinem, defendam argumentos, informem-se. No fundo, recusem ser um verme! Ou qualquer coisa mole que se arrasta nas ruas, sem ideais, sem acção, um queixume personificado, inconsequente e vazio.

terça-feira, 13 de maio de 2014

viver na bolha

Ultimamente tenho iniciado o dia na companhia de Carne Ross e do seu The Leaderless Revolution, uma obra genial sobre a força que cada indivíduo tem para mudar o mundo. E dei por mim convencida de que ia mudar o mundo. Baby steps, mas ia. Um dos primeiros passinhos deu-se pouco depois de ouvir o comboio dizer a minha estação e fechar o livro. Entrei numa reunião. Ia falar-se de "mudança". 

Falei sobre o que tinha lido - que a verdadeira mudança numa empresa implica a redistribuição de riqueza de forma mais justa: entre acionistas, administradores e colaboradores. Não é justo que os administradores ganhem, por mês, cinquenta vezes mais que eu e cem vezes mais do que muitos (mesmo muitos) colegas meus. E afinal, as empresas têm de perceber que, ao eternizar o sistema, matam o sistema. Os ricos não podem continuar a ser cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Ou não haverá ninguém que compre aquilo que enriquece os ricos. É tão simples. 

Mas a resposta foi o medo. A minha conversa sobre "redistribuição" foi entendida como sendo sobre "expansão", quando tudo o que ser quer agora é "redução". O medo ali, palpável. A fusão entre empresas faz com que certas funções se tornem redundantes, e todos sabemos o que é que isso significa. 

O medo, realmente, paralisa. Talvez tenha sido por isso que as minhas interlocutoras se apressaram a dispensar a ideia. A "transformação" que foram contratadas para fazer não inclui ("para já, para já"), redistribuição. Inclui bom ambiente, palmadinhas nas costas, bebidas gratuitas em fins de tarde animados, de dois em dois meses p'rai. 

A língua em que Carne Ross nos escreve tem uma palavra para isso: bullshit. Mas as pessoas são assim. Vivem numa bolha. E as coisas más só acontecem aos outros, não lhes dizem respeito.


Eu acredito que (backspace, backspace, backspace) eu sei que podemos mudar o mundo. O estado da situação (ou a situação do Estado) deve-se ao mau funcionamento de empresas privadas e à usurpação do poder do Estado, através dos impostos, para as salvar da falência e garantir o estilo de vida dos seus administradores. 

Ora, se o privado é a doença, também pode ser a cura. Foi nessa perspetiva que eu abordei as minhas interlocutoras, depois de ler os exemplos que Ross dá sobre empresas que resolveram redistribuir lucros de forma mais justa pelos colaboradores e tiveram crescimentos brutais. Acredito que quando dois ou três conselhos de administração se aperceberem de que, para continuar a ganhar, têm de parar e dar, haverá uma reação em cadeia que pode mudar a forma como se empregam pessoas. Maior riqueza gera maior consumo e os pobres de repente têm outra vez dinheiro para comprar aquilo que enriquece os ricos. 

O problema já não é só político, é principalmente económico, é de gestão empresarial. Basta olharmos para a capacidade que os políticos de hoje têm para inspirar as pessoas (zero) e a facilidade com que certas marcas o fazem. Portanto é isso... claro que vou continuar a votar, a discutir e a denunciar certas situações junto do meu círculo mais próximo - no fundo, continuar a tentar educar-me politicamente. Mas as pessoas andam à volta com a política, como se tivessem um cubo mágico nas mãos e não conseguissem resolvê-lo por mais voltas que dessem - em quem hei de votar, são todos iguais, são corruptos, são mentirosos, põem para o bolso, etc etc... E eu acho mesmo que a resposta passa pelo Privado, pelas empresas. São elas que mandam no mundo (para já, para já...) Ignorar isto é, no fundo, o mesmo que fingir que, para transformar uma empresa doente por dentro, basta pintar as paredes e decorá-las com umas frases giras.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

o engano da digimortalidade

Diz-se que vivemos tempos apressados, numa espiral imensa que nos desliga uns dos outros. Os nossos círculos de amigos e familiares reduzem-se, as relações humanas escasseiam. E, num movimento inverso a essa espiral, as relações que sobrevivem adensam-se, tornando-nos dependentes, frágeis. Agarramo-nos ao que nos resta de humano. 

Lugar comum: nunca estivemos tão sozinhos, mas nunca estamos sozinhos. O smartphone e o computador são janelas abertas sobre o mundo (outro lugar comum), que nos trazem a companhia virtual de amigos, conhecidos e followers. O silêncio desconfortável da espera pelo comboio pode ser anulado com um "swipe to unlock". A manhã desocupada no escritório, preenchida por likes e shares.

Não estamos sozinhos e apreciamos o conforto limpo da tecnologia. O que se perde em subtexto ganha-se na sensação de pertença e no preenchimento do Eu, na expressão da nossa individualidade. Isto gosto, isto não gosto, isto gosto tanto que tenho de partilhar.  Isto sou Eu, existo em exibição ao mundo, em direto. Não vou publicar isto agora, que as pessoas estão a jantar. O meu público é meu amigo. E os meus amigos tornaram-se o meu público.

Porque encontramos tanto conforto na tecnologia? Ela, em si, não é nada. É apenas tanto quanto os conteúdos que lá veiculamos. E ao não ser nada, é tudo. Não desilude, é sempre nova, funcional, imediata, transparente, etérea. Os nossos corpos envelhecem e morrem, mas o iPhone há de ter uma nova versão, qual elixir da juventude que nos renova o espírito. E enquanto acompanharmos a evolução, adiamos a morte. Somos digimortais. Atingimos a glória, fazemos História, estamos impressos para sempre na rede e em rede. É tão fácil. Não temos de ser no mundo, basta-nos parecer, no virtual. 

Petições, partilhas, assinaturas. Fazemos tão pouco que nos preenche tanto. Sou comentador, crítico de cinema, ativista. Na sanita, no sofá, ou no assento do autocarro. É fácil sentirmo-nos especiais, reivindicativos, revolucionários. 

A revolução digital trouxe-nos coisas boas, este texto não pretende ser uma crítica ou um olhar nostálgico sobre o "antigamente". Mas a verdade é que a tecnologia não nos preenche, pois só pode ser aquilo que nela imprimimos. Como tal, é apenas uma distração, da Vida e do que realmente importa. Um paliativo numa sociedade que, ao ligar-se à rede, desligou-se da realidade.

quarta-feira, 19 de março de 2014

ao meu novo pai

As efemérides servem para nos lembrarmos de coisas importantes. Há quem argumente que são inúteis porque o Natal é todos os dias, o dia da Mulher também o devia ser, tal como o dia da Árvore e por aí fora. Mas não. Não é todos os dias que nos lembramos da luta pelos direitos das Mulheres, nem de sermos especialmente amigos do próximo, nem de plantar uma árvore. É por isso que estas datas até fazem sentido, para mim. E é por isso que faz todo o sentido celebrar o dia do Pai. 

Comecei o dia a lembrar-me dos meus pais. Sim, tenho dois: um biológico, que esteve comigo até aos 9 anos, e um não-biológico, que me acompanhou daí para a frente. O meu pai biológico mudou-me as fraldas, aturou-me choros, acompanhou-me durante meses de internamento no hospital, quando tive de ser operada. Ensinou-me o que é ser criança, o que é o amor entre um casal (a sua versão disso), o que é importante num ser humano e aquilo que eu devia aspirar a ser. Ensinou-me as primeiras palavras, gravava a minha voz de bebé em K7 (a dizer "lula" em vez de "lua" por exemplo) enquanto apontava nos livros as coisas deste Mundo. Ele dizia e eu repetia. A lua, os mamíferos, os astros, os insectos. Com o meu pai biológico convenci-me de que queria ser veterinária, bióloga ou seguir uma carreira qualquer na área das ciências. Devo-lhe a vida, os olhos castanhos, o nariz empinado... e uma nuvem melancólica que me acompanha, e de que eu até gosto.

Depois surgiu o meu pai não-biológico. Inicialmente foi mal recebido, com gafanhotos na sopa e picos de roseira postos à socapa dentro dos sapatos. Mas depois começou a ensinar-me coisas. Ensinou-me o que é o verdadeiro amor entre um casal (e a sua versão disso é tão melhor do que a que eu conhecia). Ensinou-me História, Filosofia, Política, Arte, Ética. Ensinou-me, ó criatura de deus, a ter princípios, a manter a coluna vertebral direita e odepois a não deixar que me ponham a pata em cima. Ensinou-me aquilo que é importante num ser humano e aquilo a que eu podia aspirar a ser. De repente, resolvi ser jornalista. 

Não gravou vídeos com a câmara de filmar, em que eu andava, macambúzia, às voltas num ringue de patinagem. Não gravou a minha voz num leitor de K7. Mas juntos palmilhámos as ruas de Dublin parecias um gafanhoto, tão magrinha que eras, os dois ainda quase desconhecidos, a tornarmo-nos amigos. E todas as fotos que me tirou foram sorridentes.  

Ao meu pai não-biológico devo tudo o que tenho de bom. Pragmatismo, determinação, coragem. Foi uma presença firme, calma e positiva na minha vida. Por isso, neste dia e nesta altura em que se discute a coadopção e a importância da "família tradicional", é importante para mim dizer, ainda que seja num post altamente pessoal e lamechas, que a verdadeira família não é aquela que nos concebe - é a que nos acompanha e acarinha, seja do nosso sangue ou não. A maioria dos meus familiares são estranhos para mim. O meu novo pai não. Foi das melhores coisas que me aconteceu na vida. Conheço-o e ele conhece-me. E gostamos imenso um do outro.