terça-feira, 6 de novembro de 2012

sobre a questão do dinheiro

Durante toda a vida, desde pequeninos, somos ensinados a ter sentimentos negativos em relação ao dinheiro. O dinheiro é sujo, é mau. Anda nas mãos de toda a gente, não se deve pôr na boca. Devemos até lavar as mãos depois de lhe mexer. Quem tem muito dinheiro só pode ser um aldrabão, um corrupto, uma pessoa fútil ou sovina - o Tio Patinhas é um bom exemplo (Uncle Scrooge) do que nos enfiaram olhos adentro desde que sabemos ler e fazer contas.

Por esta ordem de ideias, numa altura em que o dinheiro escasseia, faria sentido sentirmo-nos especialmente bem: seres puros, incorruptos, simples na nossa humilde e despojada existência. Mas não. Sentimo-nos  mal, tristes e indignados, com laivos de uma revolta homicida que se exprime em páginas e páginas de blogues ou conversas intermináveis com outros igualmente indignados.

Temos mixed feelings em relação ao dinheiro. É um "nem contigo nem sem ti" permanente. Adoramos gastá-lo, mas sentimo-nos culpados a seguir. Gostaríamos de partilhá-lo, mas temos medo de o perder. Eu sinto-me especialmente vitimizada por esta forma de olhar o dinheiro, especialmente por parte da família do meu pai (acredito que a coisa me tenha ficado mesmo nos genes), que sempre viveu mal para deixar uns milhões (salvo seja) na cova.

Talvez fosse, então, de olhar a questão do dinheiro de outra forma, desde pequenino. Porque o dinheiro, efectivamente, é uma coisa fantástica. Faz-nos sentir bem, proporciona-nos boas experiências, permite-nos comprar carradas de coisas ou, quanto muito, passear pelos corredores do shopping sem sentir um aperto na garganta. O dinheiro deixa-nos dormir de noite. Aliás, acredito que olhar para uma conta bancária choruda com o seu nome no topo seria um calmante instantâneo para a maioria dos portugueses nesta altura.

Por tudo isto sugiro uma mudança de mentalidades. O dinheiro é amigo, nós queremos dinheiro e gostamos que todos tenham dinheiro. Os ricos não são necessariamente Tios Patinhas e não tem mal querer ser um Tio Patinhas. Sim, obviamente que o dinheiro não é tudo. Mas é bom, muito bom, ter dinheiro para gastar conforme se quiser, ser capaz de pôr algum de lado, mas gastar o que nos apeteça. Porque afinal de contas, fomos habituados a isso, ou a algo próximo disso, também desde muito pequeninos.

E é isto. Às vezes dá-me para escrever lições sobre como ensinar os filhos, embora eu não os tenha.

2 comentários:

joana padrel disse...


Bons conselhos para o Dexter, perseguidor de ratos.

Menos estético e bem mais degradante é o modo como os humanos correm atrás do dinheiro.

chinfrim disse...

Hmm.. era esse tipo de posição negativa que queria combater com este post. Correr atrás do dinheiro é excelente, desde que não se atropele ninguém pelo caminho :) todos ao ouro!